Redes destacadas 2017 (BIOTOX)


As sinergias resultantes do trabalho nas redes CYTED promovem avanços na investigação sobre temas que afetam os países da região ibero-americana. Um desses temas inclui as chamadas “doenças esquecidas” pela OMS, entre as quais se encontram as mordeduras de cobras venenosas e as picadas de escorpião. Trata-se de doenças de elevado impacto social na América Central e do Sul, afetando especialmente trabalhadores rurais e crianças. A rede BIOTOX inclui competências complementares de oito países ibero-americanos que se incrementam no que toca ao estudo integrado de toxinas para a elaboração de antivenenos.
 
Parte da grande diversidade biológica da fauna latino-americana é composta por espécies venenosas pouco estudadas e que, em alguns casos, podem ter impactos negativos na saúde humana. Por exemplo, na América Latina e na Caraíbas, estima-se que existam entre 137.000 e 150.000 envenenamentos e entre 3.400 e 5.000 mortes por ano devido a mordeduras de cobras venenosas. Os eventos associados às alterações climáticas, com efeitos imprevisíveis para a fauna nativa ou invasora, podem intensificar esta situação. A biodiversidade é também um importante reservatório de moléculas bioativas, particularmente toxinas, que podem ser utilizadas para formular novos tratamentos para contrariar o efeito dos venenos, bem como para o tratamento de outras patologias de grande impacto, como o cancro.

A rede CYTED BIOTOX reúne diversas competências vindas de grupos de oito países ibero-americanos. Entre eles contam-se: a produção e caracterização de venenos e antivenenos de espécies terrestres e marinhas, a análise das suas proteínas para o desenvolvimento de antivenenos e o estudo da estrutura e funcionamento das toxinas para o desenvolvimento de produtos de elevado valor acrescentado para a saúde humana. A incorporação de todos esses aspetos permitiu uma abordagem multidimensional no que diz respeito a perspetivas e instrumentos de investigação, preparando melhor os investigadores para enfrentarem estes problemas nos seus países, além de possibilitar o desenvolvimento de produtos medicinais de grande valor que contribuam para a saúde da população e para o desenvolvimento económico dos países envolvidos.
 
Entre os resultados obtidos pela BIOTOX, destaca-se a obtenção e estudo in vitro e in vivo de extratos de venenos de serpente de interesse biomédico, bem como a caracterização do veneno de peixe-leão – uma espécie invasora de grande importância para Cuba e a Costa Rica, devido à potencial ameaça que representa para os recursos pesqueiros, as comunidades de peixes autóctones e para a saúde humana –, cujo veneno não tinha sido estudado em profundidade. Estes países trabalharam de forma colaborativa para a purificação do veneno de peixe-leão e o estudo do seu efeito em diferentes sistemas celulares. As colaborações possibilitaram a obtenção no México de péptidos de anémonas marinhas, obtidas pelo grupo cubano do Centro de Bioprodutos Marinhos, CEBIMAR (Cuba) . Por outro lado, a colaboração entre a Argentina e a Costa Rica permitiu o estudo de antivenenos de cascavéis e de abelhas, de interesse para ambas as regiões. Em particular, os estudos compararam toxina da abelha da Argentina e a da Costa Rica, no sentido de analisar a aplicabilidade dos antivenenos desenvolvidos na Costa Rica contra toxinas de abelhas de espécies argentinas. Outros estudos concentraram-se na procura de soluções para a envenenamento por picada de escorpião.

Com uma visão estratégica, a rede tornou ainda possível o desenvolvimento de princípios ativos e de plataformas de vacinas contra outras doenças, como o cancro, a partir de toxinas autóctones.